Para começar 2012 renovados, vamos fazer uma reflexão através do texto abaixo. Boa leitura!
Olho ao meu redor e descubro que as coisas que quero levar não podem ser
levadas. Excedem aos tamanhos permitidos. Já imaginou chegar ao aeroporto
carregando o colchão para ser despachado?
As perguntas são muitas. E se eu tiver vontade de ouvir aquela música? E
o filme que costumo ver de vez em quando, como se fosse a primeira
vez?
Desisto. Jogo o que posso no espaço delimitado para minha partida e vou.
Vez em quando me recordo de alguma coisa esquecida, ou então, inevitavelmente
concluo que mais da metade do que levei não me serviu pra nada.
É nessa hora que descubro que partir é experiência inevitável de sofrer
ausências. E nisso mora o encanto da viagem. Viajar é descobrir o mundo que não
temos. É o tempo de sofrer a ausência que nos ajuda a mensurar o valor do mundo
que nos pertence.
E então descobrimos o motivo que levou o poeta cantar: “Bom é partir. Bom
mesmo é poder voltar!” Ele tinha razão. A partida nos abre os olhos para o que
deixamos. A distância nos permite mensurar os espaços deixados. Por isso,
partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam quem somos, o que amamos e
o que é essencial para que a gente continue sendo. Ao ver o mundo que não é meu,
eu me reencontro com desejo de amar ainda mais o meu território. É conseqüência
natural que faz o coração querer voltar ao ponto inicial, ao lugar onde tudo
começou.
É como se a voz identificasse a raiz do grito, o elemento
primeiro.
Vida e viagens seguem as mesmas regras. Os excessos nos pesam e nos retiram
a vontade de viver. Por isso é tão necessário partir. Sair na direção das
realidades que nos ausentam. Lugares e pessoas que não pertencem ao contexto de
nossas lamúrias. Hospitais, asilos, internatos...
Ver o sofrimento de perto, tocar na ferida que não dói na nossa carne, mas
que de alguma maneira pode nos humanizar.
Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita
coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território
alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o
território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar
o outro. Viaje leve, leve, bem leve. Mas se leve.
