terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Você é

Você é os brinquedos que brincou
As gírias que usava
Você é os nervos a flor da pele no vestibular
Os segredos que guardou

Você é sua praia preferida
Você é o renascido depois do acidente que escapou

Aquele amor atordoado que viveu
A conversa séria que teve com seu pai

Você é o que você lembra

Você é a saudade que sente da sua mãe


O sonho desfeito quase no altar
A infância que você recorda

A dor de não ter dado certo
De não ter falado na hora

Você é aquilo que foi amputado no passado
A emoção de um trecho de livro
A cena de rua que lhe arrancou lágrimas

Você é o que você chora
Você é o abraço inesperado

A força dada para o amigo que precisa

Você é o pelo do braço que eriça
A sensibilidade que grita
O carinho que permuta

Você é as palavras ditas para ajudar
Os gritos destrancados da garganta
Os pedaços que junta

Você é o orgasmo da gargalhada
O beijo

Você é o que você desnuda
Você é a raiva de não ter alcançado

A impotência de não conseguir mudar

Você é o desprezo pelo governo
O ódio que tudo isso dá

Você é aquele que rema,
Que cansado não desiste

Você é a indignação com o lixo jogado do carro
A ardência da revolta
Você é o que você queima
 

Você é aquilo que reivindica
O que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta

Você é os direitos que tem
Os deveres que se obriga

Você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca
Você é o que você pleiteia.
Você não é só o que come e o que veste. 


Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê.

Você é o que ninguém vê.

Martha Medeiros
Trecho de Non Stop

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