A indústria automobilística japonesa está paralisada. Na quarta-feira (16), cinco dias após o terremoto e o tsunami que abalaram o Japão, todas as fábricas das maiores montadoras de automóveis (Toyota, Nissan e Honda) ainda estavam fechadas, inclusive aquelas que não haviam sido diretamente atingidas. A número um do mundo, Toyota, estimou a produção perdida em 40 mil veículos. Na Honda, a produção foi interrompida, pelo menos até domingo (16 mil veículos).
Segundo os analistas do banco americano Goldman Sachs, citados pela agência de notícias Bloomberg, as consequências financeiras chegam a 2 bilhões de ienes (R$ 41 milhões) por dia de interrupção para a Nissan e a Honda. Para a Toyota, a conta seria três vezes maior. Depois de terem despencado na segunda e na terça-feira (-12,53% para a Nissan e -14,74% para a Toyota), as ações das montadoras dispararam na quarta-feira: +6,85% para aToyota, +5,44% para a Nissan e +5,74% para a Honda.As fábricas poderão retomar sua produção nos próximos dias, mas certamente não por muito tempo, pois embora as instalações não tenham sido destruídas, foi a rede de fabricantes de equipamentos e de seus fornecedores que sofreu. Sem contar a dificuldade para transportar essas peças dentro de um país onde a logística agora está totalmente desorganizada.
Carlos Ghosn, o presidente da Nissan, declarou na segunda-feira: mesmo que as fábricas do grupo retomem as atividades nos próximos dias, não será por “muito tempo”, pois a rede de fornecedores “está verdadeiramente devastada”.
A particularidade da indústria automobilística japonesa reside em funcionar em “Kanban”: um conceito inventado pela Toyota no fim dos anos 1950, que consiste em produzir somente por demanda. Esse método tem a vantagem de limitar o volume de estoque, e de reduzir seu custo. “As montadoras japonesas devem observar um desafio triplo: retomar a produção apesar dos cortes de energia, abastecer-se junto a empresas terceirizadas apesar do estado das estradas, enviar os modelos para o exterior, sabendo que os portos da costa oriental estão inacessíveis”, explica Yann Lacroix, diretor de estudos setoriais na seguradora Euler Hermès.
Essas disfunções já devem estar tendo repercussões no exterior. O Japão é o segundo maior exportador mundial de veículos, atrás da Alemanha. Mais de um em cada dez carros no mundo sai das fábricas japonesas. Em 2010, as exportações do setor (carros e peças avulsas) representaram US$ 130 bilhões (R$ 217 bilhões). Mais de 8 milhões de veículos foram fabricados no Japão, e metade da produção foi exportada para os Estados Unidos.
“Nós produzimos 47% de nossos veículos no Japão, ou seja, cerca de 4 milhões de unidades, e desse total, exportamos quase metade (1,8 milhão)”, afirma Philippe Boursereau, porta-voz da Toyota na França. Por não conseguir receber peças avulsas, a montadora poderá encontrar problemas de entrega para alguns de seus veículos exclusivamente produzidos no Japão, como por exemplo seu veículo híbrido, o Prius, seu utilitário RAV 4 ou ainda o pequeno iQ.
“Ainda não temos uma imagem muito precisa do estado de nossos fornecedores”, afirma Boursereau. O grupo ressalta, no entanto, que 60% dos carros vendidos na Europa são produzidos no Japão: “Nós temos um tempo de transporte de seis semanas. Portanto, em cinco semanas nós ainda receberemos carros (ou componentes) produzidos antes do terremoto e do tsunami.” As perturbações nas fábricas europeias ou americanas, se houver, são esperadas mais para meados de abril. Nos Estados Unidos, a Toyota decidiu por precaução eliminar as horas extras de suas cadeias de produção.
As montadoras americanas já manifestaram seus temores. “As catástrofes em série que estão atingindo o Japão terão um efeito sobre todas as montadoras”, declarou Chris Perry, vice-presidente encarregado de marketing da General Motors. Muito presente na China, a número dois mundial da indústria automobilística poderá ser afetada também: muitos de seus fornecedores estão situados no Japão.
Da mesma forma, a Ford, que utiliza baterias da Sanyo em seus veículos híbridos, afirmou que estava monitorando de muito perto o estado de seus estoques.
Fonte: Le Monde
Nathalie Brafman
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