Para Jean-Paul Sartre, filósofo francês do século XX e pai do existencialismo, estamos todos condenados à liberdade. Não à liberdade política, por certo, mas à liberdade existencial. Liberdade de podermos construir ou reconstruir aquilo que acreditamos ser a nossa essência. A essa falsa essência, a psicologia chama de identidade. A identidade não é imutável e nem natural ou inata, como a ideia de essência. Ela é mutável, artificial e criada por nós mesmos a partir de determinadas influências sociais. Mas apesar de toda essa precariedade, uma vez construída uma identidade, ela funciona como se fosse uma essência.
Parece incrível, mas temos a liberdade de mudarmos nossa personalidade, de gostarmos muito de quindim hoje e detestá-lo amanhã, de curtir de montão música clássica hoje e amar axé amanhã, mas isso nos desagrada. Preferimos a ideia de que temos uma essência e tentamos agir de forma coerente com ela. Não cobramos essa coerência apenas de nós, mas dos outros também. Estranhamos as mudanças alheias e reagimos a elas com muito mais ênfase do que reagimos às nossas próprias mudanças. A liberdade, para quem quer ter uma essência, é realmente uma condenação. Somos livres, mas não queremos ser e não sabemos o que fazer de nossa liberdade. Aliás, sabemos sim, negamo-la.
Mas por que recusamos a liberdade existencial? Pelo preço a ser pago por ela: a angústia. Explico com um exemplo. Imagine-se num restaurante self-service. Quando está a se servir, depara-se com uma escolha: sushi ou feijoada? As duas iguarias estão disponíveis e você é livre para se servir de uma ou outra. Ambas lhe apetecem. Você é amante de sushi e também de feijoada, mas o prazer do sushi exige a ausência da feijoada no prato e vice-versa. Só feijoada ou só sushi é prazeroso, mas sushi e feijoada no mesmo prato é indigesto. Opção excluída pelo princípio que norteia a sua alimentação: o do prazer. Só resta a escolha: sushi ou feijoada?
Eis o momento em que advém a angústia. A dúvida sobre qual a melhor vida possível, a com sushi ou a com feijoada? A liberdade nos coloca diante de escolhas e estas, por sua vez, causam em nós a angústia. A angústia seria um medo sem objeto claramente definido. Medo alimentado pela incerteza da alma que oscila incerta entre dois mundos possíveis.
Tragicamente, a angústia não acaba quando escolhemos. Diante do prato de feijoada podemos sempre continuar nos perguntando se realmente fizemos a escolha certa para aquela refeição. Se nossa vida é realmente melhor com a feijoada do que com o sushi. Eis a angustia que advém quando das encruzilhadas da liberdade e que permanece, que é prolongada pelas nossas incertezas sobre a existência escolhida. A angústia é a sensação negativa advinda da constatação do peso moral de nossas escolhas ou de nossa responsabilidade.
Não gostamos da angústia e, assim como a ideia da morte e da finitude que nos amedronta, tentamos fugir dela através de ilusões sobre a vida, como se fosse possível uma vida eterna ou sem angústia. A estratégia que, consciente ou inconscientemente, adotamos para fugir da angústia é a alienação de nossa própria liberdade. Representamos a nós mesmos como seres sem liberdade, que desculpa o atraso de horas dizendo que teve que parar numa liquidação imperdível. Ou como a amiga que lhe culpa pela quebra da dieta, porque você cozinha bem. A alienação, num sentido moral, é a da nossa liberdade existencial e, portanto, de nossa própria responsabilidade para com a nossa vida e a dos outros.
Por Júlio Pompeu, graduado em Direito e em Filosofia, mestre em Direito e doutorando em Psicologia.
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