No Brasil, hoje, cerca de 10% da população moram sozinha e esse número vem crescendo, motivado, inclusive por uma sensível redução de casamentos registrada nos últimos anos. Não só no Brasil. Há uma tendência mundial de crescimento no número de solitários.
Alguns comentários que li a respeito dessa tendência lastimam o fato de que boa parte desses solitários são assim por falta de opção. Pessoas que ficaram sozinhas pelas circunstâncias da vida. Eu não vejo assim. Lastimo, principalmente, aquelas que estão solitárias por opção — e são as que apresentam a maior taxa de crescimento.
A preferência pela solidão é intrigante. Afinal, o ser humano cada vez mais se amontoa em centros urbanos e, ao mesmo tempo, se isola — o individualismo conduzido ao seu limite, como se houvesse uma negação da própria espécie. Uma intolerância crescente com seus semelhantes.
É ainda mais intrigante se pensarmos que a capacidade do homo sapiens de se organizar em sociedade, definir funções e estabelecer vínculos familiares foi fundamental para que a espécie evoluísse e produzisse tudo isso que usufruímos agora. Como se estivéssemos procurando caminhos que possam contradizer a nossa própria evolução.
Não quero, com isso, reforçar as ideias mais tradicionais da família e das uniões. Mas é triste constatar que, em nossas relações pessoais, é cada vez mais natural ouvir comentários que reforçam e estimulam a vida solitária. Viver sozinho é melhor, mais fácil e mais agradável do que ter companhias permanentes. É possível, assim, se abster das relações complexas e comprometedoras com o companheiro ou companheira, com filhos, familiares, amigos e conhecidos. Isso dá trabalho, desgasta e não oferece nada em troco. Parece ser essa uma tendência cada vez mais pronunciada.
O casamento e a formação da família podem ser instituições falidas para quem pensa assim. Talvez seja mesmo, não sei. Mas mesmo que sejam, será que não há outra solução? O mais importante, no entanto, não é adotar soluções alternativas e defendê-las como definitivas. O mais importante é tentar alguma solução. Insistir na ideia de que somos seres com vocação de se agregar, de viver coletivamente e de pagar pelo preço que o compartilhamento de emoções da vida pode provocar.
A solidão não é humana.
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