“Acreditamos que podemos controlar tudo, o que é uma ilusão. Quando compreendemos isso, nos frustramos profundamente”, Dulce Critelli, filósofa e terapeuta existencial
Bagagem antiga
Na Índia, não é possível pensar a vida sem dela extrair significados transcendentes. O cotidiano na terra de Gandhi é marcado pela ideia de carma – palavra que vem de karman, “ação”, em sânscrito, antigo idioma dos indianos –, espécie de bagagem de talentos e limitações que trazemos de vidas passadas e que influenciam positiva ou negativamente nossas ações nessa encarnação.
Muitos associam tal “herança” a um fardo que temos de carregar com resignação. É bom esclarecer que o carma está longe de ser um veredicto contra o qual nada podemos fazer.
“De acordo com as escrituras védicas, nada é imutável, tudo pode ser transformado, desde que haja um firme propósito e autoconhecimento”, declara o astrólogo védico Horacio Tackanoo, autor de Escrito nas Estrelas - Astrologia Védica no Dia a Dia (ed. Rocco).
Sob essa perspectiva, nossa missão na Terra é despertar a consciência para que possamos fazer escolhas mais sábias, capazes de transmutar essas energias, ou seja, minimizar os carmas maléficos e potencializar os benéficos. Assim, poderemos ascender espiritualmente. Segundo o astrólogo, há muitas formas de trabalhar essas cargas: aproveitando as informações concedidas pelos astros, praticando ioga e meditação, equilibrando os chacras, entoando mantras, se beneficiando do poder de cura das pedras. “Todas essas são ferramentas de transformação. Cada um decide se quer se acomodar ou mudar atitudes e hábitos”, desafia ele.
Nesse sentido, a sabedoria indiana nos reconhece como seres dotados de inteligência e discernimento e, portanto, capazes de exercitar plenamente o livre-arbítrio, termo que ocupou importantes filósofos ao longo da história. “Na Grécia Antiga, Aristóteles afirmou que os homens podiam escolher os meios para alcançar a felicidade. Já na Idade Média, Santo Agostinho defendeu que a vontade essencial pertence a Deus, mas que podemos segui-la ou não”, afirma Dulce Critelli.
Querer é poder?
Hoje em dia, prevalece a noção de que podemos criar a nossa realidade. “Na modernidade, esvazia-se a relação com a divindade. Sobra apenas o homem se expressando por meio de duas forças: a razão e o desejo. Obedeço ao pensamento ou persigo o prazer?”, aponta Dulce. O problema é que nessa busca deparamos com o imprevisível, o imponderável, e, então, percebemos que as rédeas da vida não estão nas nossas mãos. “Nós acreditamos que podemos controlar tudo, o que é uma ilusão. Quando compreendemos isso, nos frustramos profundamente”, comenta a filósofa.
Diante da decepção inevitável, sobretudo numa sociedade consumista que preza a saciedade imediata dos desejos, a solução para alguns é frear a máquina de produzir anseios. Dessa forma, evitam a dor da frustração.
“Alguns indivíduos passam a não mais desejar. Apenas aceitam as coisas como elas são ou, então, se obrigam a querer aquilo que a vida traz, acreditando que Deus ou o destino assim determinou.”
Para Dulce, essa saída de emergência desemboca na supervalorização do “eu”, postura que, por sua vez, resulta em prepotência e isolamento. Um grande equívoco, já que, segundo ela, a transformação só se efetiva mediante a ajuda dos nossos pares.
“Temos de estabelecer parcerias com as pessoas. Apenas por meio da colaboração podemos atingir nossos objetivos”, propõe a filósofa. Esse pacto, ela avisa, não só dá trabalho, como exige paciência e humildade. “Temos de ter determinação para nos mantermos em nossos propósitos e flexibilidade para lidar com os imprevistos, e também com a aceitação ou recusa do outro”, pondera.
Melhor assim. Afinal, por acaso ou por uma série de coincidências armadas pelo destino, estamos vivos e devemos continuar alimentando nossos sonhos e desejos.
Por Raphaela de Campos Mello
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